Direita, esquerda, e a mulher que vocês esquecem no meio da discussão
Em ano eleitoral, o Brasil parece viver dentro de uma seta.
Para um lado. Para o outro. Contra alguém. A favor de alguém.
Direita. Esquerda. Centro. Conservador. Progressista.
Todo mundo quer saber de que lado você está.
Mas talvez exista uma pergunta mais importante:
de que lado fica o respeito quando a pessoa à sua frente é uma acompanhante?
Porque existe algo desconfortável na forma como parte da sociedade fala sobre mulheres que trabalham no mercado de acompanhantes.
Pessoas podem discordar profundamente sobre política, economia, costumes, religião, liberdade individual ou papel do Estado. Isso faz parte de uma sociedade plural.
O problema começa quando a divergência termina e a humilhação começa.
Principalmente quando a profissão de uma mulher é transformada em insulto.
Quando uma profissão vira palavrão, o problema não está na profissão
Observe uma discussão política mais acalorada.
Quando alguém quer atacar uma mulher, não é incomum que a sexualidade apareça como arma.
Termos associados à prostituição são usados para diminuir, constranger ou desacreditar.
À primeira vista, parece apenas mais um xingamento.
Mas existe uma mensagem escondida nisso.
Para que chamar alguém de “prostituta” funcione como ofensa, é necessário pressupor que ser prostituta seja, por si só, algo humilhante.
E é exatamente aí que o preconceito aparece.
A pessoa atacada pode nunca ter trabalhado como acompanhante.
Mesmo assim, a ofensa atinge indiretamente quem trabalha.
Porque transforma uma ocupação real em sinônimo de falta de caráter.
No Brasil, a Classificação Brasileira de Ocupações reconhece a categoria “profissional do sexo”, código 5198-05, incluindo atividades como atender e acompanhar clientes. Isso não significa que a profissão seja regulamentada por uma lei específica nos mesmos moldes de outras categorias, mas significa que estamos falando de uma atividade existente e oficialmente classificada no mercado de trabalho.
Não de uma metáfora.
Não de um insulto.
De pessoas.
A política muda. O preconceito troca de roupa.
Talvez uma das partes mais interessantes dessa conversa seja perceber que o preconceito não pertence exclusivamente a um lado político.
Ele apenas muda de linguagem.
Às vezes aparece disfarçado de moralidade.
Às vezes de julgamento social.
Às vezes de piada.
Às vezes de uma suposta preocupação que nunca perguntou à própria profissional o que ela pensa.
Direita e esquerda podem discordar sobre praticamente tudo.
Mas uma acompanhante pode ser atacada por pessoas de qualquer espectro político.
E isso revela uma contradição curiosa.
Defendemos liberdade, desde que seja uma liberdade com a qual concordamos.
Defendemos mulheres, desde que elas façam escolhas que consideramos aceitáveis.
Defendemos dignidade, até encontrarmos alguém cuja vida não cabe nos nossos valores.
Talvez o verdadeiro teste do respeito não seja defender quem vive exatamente como você.
É reconhecer a dignidade de quem não vive.
“Eu não concordo com esse trabalho”
Tudo bem.
Essa frase talvez precise aparecer com mais frequência nessa discussão.
Você não precisa concordar.
Respeito nunca significou concordância.
Você não precisa seguir uma religião para respeitar quem segue.
Não precisa ter determinado estilo de vida para respeitar quem o escolheu.
Não precisa votar da mesma forma para reconhecer a cidadania de outra pessoa.
E não precisa contratar uma acompanhante para entender que ela não merece ser humilhada.
Existe uma diferença enorme entre dizer:
“Essa profissão não combina com os meus valores.”
e dizer:
“Quem exerce essa profissão vale menos.”
A primeira frase expressa uma convicção pessoal.
A segunda retira dignidade de alguém.
E nenhuma eleição deveria tornar essa diferença menos importante.
Domingo tem urna. Segunda-feira ainda tem gente.
O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 acontece neste domingo, 4 de outubro. Brasileiros irão às urnas para escolher representantes para Presidência da República, governos estaduais, Senado, Câmara dos Deputados e assembleias legislativas ou Câmara Distrital.
Mas existe algo que nenhuma urna pergunta:
qual é a sua profissão?
Entre as pessoas que votam existem médicos, vendedores, advogados, motoristas, professores, empreendedores, desempregados, estudantes e acompanhantes.
Existem mulheres que trabalham com companhia e intimidade e que também:
pagam boletos.
Sustentam famílias.
Estudam.
Empreendem.
Cuidam de outras pessoas.
Têm opiniões políticas.
Mudam de opinião.
Discordam umas das outras.
Porque uma categoria profissional não é um partido.
Não existe “o voto das acompanhantes”.
Não existe uma ideologia obrigatória para quem trabalha nesse mercado.
Uma acompanhante pode ser de direita.
Pode ser de esquerda.
Pode estar no centro.
Pode não gostar de política.
Pode votar diferente da colega que trabalha ao lado.
Parece óbvio.
Mas transformar grupos inteiros em estereótipos é justamente uma das maneiras mais rápidas de esquecer que estamos falando de indivíduos.
A acompanhante não entrega a cidadania junto com a agenda
Existe uma tendência estranha de imaginar que determinadas profissões anulam todas as outras dimensões de uma pessoa.
Quando uma mulher se torna acompanhante, algumas pessoas passam a enxergá-la apenas por essa característica.
Como se ela deixasse de ser filha.
Amiga.
Mãe.
Eleitora.
Consumidora.
Empreendedora.
Vizinha.
Pessoa.
Não deixa.
A atividade profissional não suspende direitos básicos.
Não elimina o direito à privacidade.
Não elimina o direito à segurança.
Não elimina o direito de estabelecer limites.
E certamente não transforma violência verbal em opinião legítima.
O mercado que todo mundo comenta — e pouca gente escuta
Existe outra contradição.
Poucos mercados despertam tanta curiosidade quanto o de acompanhantes.
As pessoas querem saber quanto uma profissional ganha.
Quem são seus clientes.
Como funciona um encontro.
O que os homens procuram.
Quais fantasias aparecem.
Como uma acompanhante escolhe quem atender.
A curiosidade parece infinita.
Mas quando essas mesmas mulheres falam sobre preconceito, segurança, limites, exposição ou dignidade, a conversa frequentemente perde audiência.
É mais confortável transformar uma acompanhante em personagem do que ouvir o que ela tem a dizer.
Porque personagens podem ser julgados.
Pessoas precisam ser compreendidas em toda a sua complexidade.
Talvez o problema nunca tenha sido o sexo
Talvez parte do desconforto social não esteja propriamente na atividade.
Talvez esteja na autonomia.
Uma mulher que estabelece seus próprios limites, define como trabalha, escolhe clientes e administra sua própria imagem rompe com determinadas expectativas históricas sobre como a sexualidade feminina deveria existir.
E isso desperta reações.
Algumas legítimas, dentro de debates jurídicos, sociais ou morais.
Outras simplesmente preconceituosas.
É possível discutir prostituição como fenômeno social.
É possível discutir regulamentação.
É possível discutir exploração.
É possível discutir segurança.
É possível discutir plataformas.
É possível discutir políticas públicas.
O que não deveria ser necessário discutir é se uma pessoa merece dignidade.
A ModelBR não precisa escolher um lado
E nem deveria.
Uma plataforma reúne pessoas diferentes.
Com histórias diferentes.
Valores diferentes.
Religiões diferentes.
Visões políticas diferentes.
A ModelBR não precisa dizer em quem alguém deve votar.
Também não precisa transformar uma campanha eleitoral em campanha partidária.
Mas pode defender princípios que deveriam sobreviver a qualquer eleição:
respeito.
consentimento.
segurança.
privacidade.
autonomia.
dignidade.
Nenhuma dessas palavras pertence à direita.
Nenhuma pertence à esquerda.
Nenhuma precisa de número de candidato.
Seu voto é secreto. Seu respeito não deveria ser.
Depois da eleição, muita coisa desaparece.
As campanhas acabam.
Os materiais eleitorais somem das ruas.
As hashtags encontram outro assunto.
Os debates diminuem.
Mas as pessoas permanecem.
A profissional que virou piada continua trabalhando.
A mulher cuja profissão foi usada como xingamento continua existindo.
A pessoa que votou diferente de você pode continuar sendo sua vizinha, sua colega, sua cliente ou alguém que simplesmente cruza o seu caminho.
Talvez a democracia não seja testada apenas dentro da cabine de votação.
Talvez ela também seja testada na maneira como tratamos quem não pensa, não vive ou não trabalha como nós.
Porque você pode escolher direita.
Pode escolher esquerda.
Pode escolher centro.
Pode discordar.
Pode argumentar.
Pode defender aquilo em que acredita.
Só não precisa retirar a dignidade de alguém para fazer isso.
Afinal:
seu voto é secreto.
Seu respeito não deveria ser.
ModelBR, respeito não precisa de legenda política.
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