Quando fugir da realidade começa a cobrar um preço: saúde mental, drogas e a rotina de quem trabalha como acompanhante
Existe uma diferença importante entre querer relaxar depois de um dia difícil e perceber que você precisa de alguma coisa para conseguir suportar o dia.
Essa fronteira nem sempre é fácil de enxergar.
Para algumas pessoas, o álcool ou outras substâncias aparecem inicialmente como uma forma de socialização, diversão ou curiosidade. Para outras, começam a ocupar um espaço diferente: ajudam a dormir, dão coragem, diminuem a ansiedade, prolongam a energia, fazem esquecer uma situação desagradável ou criam uma sensação temporária de distância da própria realidade.
É justamente aí que precisamos falar sobre saúde mental.
E precisamos falar sobre isso sem julgamento.
No universo das acompanhantes, existe uma realidade que raramente aparece nas fotografias, nos anúncios ou nas conversas públicas. Por trás da imagem profissional podem existir jornadas irregulares, pressão financeira, necessidade constante de estabelecer limites, exposição ao julgamento social, solidão, experiências desagradáveis e uma separação emocional nem sempre simples entre a pessoa e aquilo que ela precisa representar profissionalmente.
Nada disso significa que toda acompanhante tenha problemas emocionais ou faça uso de substâncias.
Significa apenas que ignorar os fatores de estresse presentes nessa realidade também não ajuda ninguém.
A substância nem sempre é o começo da história
Quando observamos alguém fazendo uso frequente de alguma substância, é fácil concentrar toda a atenção nela.
Mas muitas vezes existe uma pergunta anterior:
o que essa pessoa está tentando não sentir?
Ansiedade?
Medo?
Solidão?
Cansaço?
Insônia?
Uma experiência traumática?
A necessidade de continuar funcionando quando emocionalmente já não existe energia?
Essa perspectiva muda completamente a conversa.
Em vez de perguntar apenas “por que ela usa?”, talvez seja necessário perguntar também:
“O que está acontecendo para que ficar sóbria com os próprios sentimentos tenha se tornado tão difícil?”
A Organização Mundial da Saúde reconhece uma relação importante entre sofrimento psicológico, trauma e transtornos relacionados ao uso de substâncias. Pessoas expostas a eventos traumáticos podem apresentar depressão, ansiedade, sintomas de estresse pós-traumático e também recorrer ao álcool ou a outras drogas como tentativa de aliviar temporariamente esses sintomas.
O alívio pode existir.
O problema é que ele costuma ser temporário.
E aquilo que inicialmente servia para diminuir a ansiedade pode começar, com o tempo, a intensificá-la.
O perigo da anestesia emocional
Talvez uma das formas mais silenciosas de sofrimento seja continuar funcionando normalmente.
Responder mensagens.
Marcar horários.
Trabalhar.
Sair.
Conversar.
Sorrir.
Publicar.
Pagar contas.
Enquanto internamente alguma coisa está se tornando cada vez mais difícil de sustentar.
Substâncias psicoativas alteram processos como percepção, consciência, humor, cognição e emoções. Por isso, algumas pessoas encontram nelas uma espécie de botão temporário de desligamento.
O cérebro aprende rápido:
ansiedade → substância → alívio.
tristeza → substância → alívio.
insônia → substância → alívio.
situação desconfortável → substância → alívio.
E quando essa associação começa a se repetir, aquilo que era ocasional pode se transformar em estratégia emocional.
A questão deixa de ser apenas “estou usando?”.
Passa a ser:
“Estou começando a acreditar que só consigo enfrentar determinadas situações se usar?”
Essa pergunta merece atenção.
“Mas eu consigo trabalhar normalmente”
Funcionalidade não é sinônimo de ausência de sofrimento.
Uma pessoa pode estar trabalhando, cuidando da aparência, administrando dinheiro e cumprindo compromissos enquanto desenvolve uma relação cada vez mais prejudicial com álcool ou outras substâncias.
Aliás, essa é uma das razões pelas quais determinados problemas demoram tanto para serem percebidos.
Existe a ideia de que dependência sempre aparece acompanhada de perda completa de controle, abandono do trabalho ou deterioração visível da vida.
Nem sempre.
Antes disso, podem surgir sinais muito mais discretos.
A necessidade de usar para conseguir relaxar.
Dificuldade de dormir sem alguma substância.
Aumento progressivo da frequência.
Necessidade de uma quantidade maior para alcançar o mesmo efeito.
Ansiedade quando sabe que não poderá usar.
Uso para conseguir trabalhar ou socializar.
Arrependimento frequente depois.
Gastos que começam a incomodar.
Situações de risco que anteriormente seriam evitadas.
Perda de memória sobre partes da noite.
Promessas repetidas de diminuir, seguidas pelo retorno ao mesmo padrão.
Nenhum desses sinais isoladamente define uma pessoa.
Mas eles podem indicar que vale a pena olhar para a situação com mais cuidado.
Quando o trabalho exige desligar emoções
Existe ainda outro ponto delicado.
Profissões que envolvem interação humana intensa exigem trabalho emocional.
Você não administra apenas tarefas. Administra também comportamento, expectativa, limites e percepção.
Na realidade das acompanhantes, isso pode envolver situações muito particulares.
É possível precisar manter uma conversa quando está cansada.
Demonstrar segurança quando está desconfortável.
Administrar clientes difíceis.
Estabelecer limites sem saber exatamente como o outro reagirá.
Ou simplesmente lidar com a sensação de precisar separar aquilo que acontece durante o trabalho da própria identidade.
Não existe uma única experiência de trabalho sexual. Algumas profissionais relatam autonomia e satisfação; outras enfrentam contextos de vulnerabilidade, violência ou estigma — e muitas podem vivenciar diferentes realidades ao longo da vida.
Uma revisão sistemática publicada em 2026, reunindo mais de 200 estudos e mais de 157 mil participantes, encontrou associação entre violência sexual sofrida por trabalhadores do sexo e maior ocorrência de sintomas depressivos, pós-traumáticos, ideação suicida e consumo de álcool e outras drogas.
Isso não permite afirmar que o trabalho, por si só, causa uso de substâncias.
Permite afirmar algo mais importante:
saúde mental, segurança e condições de trabalho não podem ser discutidas separadamente.
Não transforme uma estratégia de sobrevivência em motivo de vergonha
Existe uma frase cruel utilizada com frequência quando alguém enfrenta problemas relacionados a drogas:
“Ela escolheu isso.”
A realidade humana é muito mais complexa.
Sim, escolhas existem.
Mas também existem história, contexto, sofrimento emocional, vulnerabilidade, violência, ambiente, saúde mental e disponibilidade de ajuda.
Segundo o Relatório Mundial sobre Drogas de 2025 das Nações Unidas, mulheres que desenvolvem transtornos relacionados ao uso de drogas frequentemente enfrentam níveis maiores de estigma e barreiras adicionais para procurar tratamento. O relatório também chama atenção para a presença relevante de histórico de trauma e outros problemas psicológicos nessa população.
O estigma produz exatamente o contrário do que deveria.
Quanto mais vergonha alguém sente, mais tende a esconder.
Quanto mais esconde, mais tarde pode procurar ajuda.
Por isso, dizer “procure ajuda” não basta.
É necessário construir ambientes onde pedir ajuda não pareça uma confissão de fracasso.
Talvez a pergunta não seja “eu sou dependente?”
Para muitas pessoas, a palavra dependência é tão pesada que impede qualquer reflexão.
Então talvez possamos começar de outro jeito.
Pergunte a si mesma:
Estou usando para me divertir ou para conseguir suportar alguma coisa?
Consigo enfrentar uma noite difícil sem precisar me anestesiar depois?
Consigo dormir sem usar?
Minha quantidade aumentou nos últimos meses?
Já fiz coisas sob efeito que não faria normalmente?
Já aceitei situações ou ultrapassei limites que provavelmente não aceitaria sóbria?
Estou escondendo quanto uso das pessoas próximas?
Já pensei que precisava diminuir e não consegui?
Minha ansiedade ou tristeza pioram depois?
Responder “sim” a alguma dessas perguntas não significa necessariamente dependência.
Significa que talvez exista algo que mereça ser cuidado agora — e não apenas quando chegar ao limite.
Cuidar da mente também é estratégia profissional
Saúde mental não deve ser vista apenas como algo procurado quando tudo está dando errado.
Ela também é prevenção.
É entender seus limites.
Criar rotinas de recuperação depois do trabalho.
Ter pessoas com quem você consiga conversar sem precisar representar uma personagem.
Dormir adequadamente sempre que possível.
Perceber alterações persistentes de humor.
Reconhecer quando um trabalho ou cliente ultrapassou emocionalmente aquilo que você consegue processar sozinha.
E procurar acompanhamento psicológico ou médico quando necessário.
Para algumas pessoas, reduzir ou interromper o uso será possível com acompanhamento ambulatorial.
Outras poderão precisar de um cuidado mais estruturado.
Não existe uma única trajetória.
O importante é compreender que tratamento para problemas relacionados a álcool e outras drogas existe — e procurar ajuda não exige chegar ao “fundo do poço”.
No Brasil, a Rede de Atenção Psicossocial do SUS oferece assistência para pessoas com sofrimento mental e problemas relacionados ao uso prejudicial de álcool e outras drogas. Os CAPS são serviços comunitários de saúde mental, e existem modalidades especializadas em álcool e outras drogas, os CAPS AD.
Antes de tentar fugir, descubra do que você está fugindo
Talvez esta seja a reflexão mais importante deste texto.
Existem momentos em que a vontade de esquecer alguma coisa parece maior do que a vontade de enfrentá-la.
Mas determinados sentimentos não desaparecem porque foram temporariamente silenciados.
Ansiedade continua esperando.
Traumas continuam existindo.
Solidão continua ali.
Exaustão continua acumulando.
E algumas substâncias conseguem fazer silêncio por algumas horas — enquanto, lentamente, acrescentam um novo problema àquilo que já precisava ser cuidado.
Por isso, talvez uma das formas mais corajosas de autocuidado seja parar e perguntar:
“O que eu estou tentando anestesiar?”
Às vezes, essa pergunta é o começo de uma mudança.
Não porque alguém decidiu julgar o seu comportamento.
Mas porque você decidiu prestar atenção em si mesma antes que o corpo ou a mente precisem gritar para serem ouvidos.
Na ModelBR, falar sobre acompanhantes também significa falar sobre as pessoas que existem por trás dos perfis.
E nenhuma agenda, trabalho ou personagem profissional deveria ser mais importante do que a própria saúde.